Infelizmente é isto que se passa no nosso país e é contra isto que eu e muitos outras pessoas lutamos diariamente.
É verdadeiramente frustrante, tantos anos de estudo, tanto dinheiro investido numa formação superior para depois sermos alvo de mão-de-obra barata, sub-aproveitados, explorados e muitas vezes humilhados por patrões sem escrúpulos.
É esta a sociedade em que vivemos.
Obrigada Joana Petiz, por dar voz a um flagelo nacional.
"Nos tempos que vivemos, seria de pensar que encontrar um bom profissional é uma tarefa relativamente fácil. O mercado está mau e muitas pessoas competentes foram arrastadas para situações precárias – empresas à beira do colapso, despedimentos forçados, salários parcos... E no entanto, encontrar alguém que cumpra os mínimos aceitáveis não é pêra doce.
Na verdade, parece que a falta de empregos está a afastar as melhores pessoas dos empregos disponíveis, deixando apenas os razoáveis e os medíocres a saltitar de entrevista em entrevista, até encontrarem alguém suficientemente desesperado para aceitar contratá-los – um prenúncio de desgraça.
Mas porque será que é tão difícil recrutar numa altura em que toda há tanta gente disponível? Da mesma forma que encontrar um empregado com talentos e qualidades – que não se revele uma aposta falhada um ou dois meses depois, quando passa o período do encanto e ele começa a revelar falhas de carácter e a cometer erros graves –, aceitar uma proposta de trabalho pode revelar-se um jogo de sorte ou azar.
Por muito que procuremos saber sobre uma empresa e as pessoas que lá trabalham, na maioria das vezes em que enviamos um currículo não sabemos quase nada sobre o que vai acontecer se formos aceites. Ainda que tudo corra bem nas conversas prévias, um par de entrevistas de meia hora não chega para realmente conhecermos quem nos contrata ou fazermos sequer ideia de como as coisas acontecem na empresa.
Da mesma maneira que contratar alguém que não se conhece é dar um voto de confiança a um desconhecido, aceitar uma posição numa estrutura é um tiro no escuro. E os profissionais realmente bons – e que conhecem o seu valor – muitas vezes preferem tentar a sua sorte sozinhos do que meter-se num jogo que pode acabar em infelicidade e frustração.
Num mercado de trabalho fragilizado e com cada vez mais magras condições, cada vez mais gente opta por ser o seu próprio chefe: em vez de se prender a uma estrutura profissional, vai conciliando diversos trabalhos pontuais, escolhe um regime de freelancer ou prefere encontrar trabalhos com prazo de validade.
No fundo, vende um serviço e aquilo que faz melhor, nas suas condições e, muitas vezes, com tempo de sobra para a sua vida pessoal – algo pouco comum para quem vive a tentar aguentar um emprego fixo às ordens de um chefe mercenário que faz questão de lhe lembrar diariamente que, com o seu salário, podia contratar cinco outros escravos.
Na verdade, esta nova forma de encarar o mercado de trabalho é também uma oportunidade para as empresas. Ao contratar pessoas diferentes e comprovadamente competentes em determinadas funções para trabalhos específicos, terá quase de certeza o melhor resultado final nessa área. De caminho, vai ganhando tempo para se conhecerem melhor. E é bem possível que, ao fim de poucos meses, tenha encontrado assim o candidato que andou meses a procurar em entrevistas ocas."
por Joana Petiz
Editora-executiva na Jornal i