Hoje presenciei uma cena que me deixou a pensar … uma rapariga com cerca de 35 anos, brincava com o seu filhote que devia ter não mais do que 5 anos. A alegria contagiante daquela criança, contrastava com a tristeza do olhar da mãe, que pela sua aparência frágil (muito pálida, magra) e sem cabelo embora que ainda muito bem disfarçado com um lenço, era nitidamente mais uma vitima de cancro.
Esta imagem fez-me recuar no tempo … 30 years ago, I was 8 years old.
A minha mãe tinha precisamente a idade que tenho hoje: 38 anos. Estava na flor da idade e foi assolada com uma terrível doença (tal como a rapariga que vi).
Lembro-me como se fosse hoje… estava sentada a ver televisão quando a minha mãe chega junto a mim aflita com muita comichão. Olhei para ela preocupada sem saber o que fazer para a ajudar. Tinha o corpo vermelho e os olhos amarelos. Nessa mesma noite o meu pai levou-a para o médico. Foi um inicio de uma longa caminhada. Andou de médico em médico, ninguém conseguia chegar a nenhum resultado conclusivo. Uns diziam que era fígado, outros icterícia, outros inventavam. Ponderaram até a hipótese de a levar para Londres onde a medicina estava mais avança naquela matéria ( na minha opinião naquela e em todas, mas adiante). Até que deu entrada no IPO de Lisboa e aí sim, descobriram o que a minha mãe tinha: Um Linfoma de Hodgkin, que corresponde a um tipo de cancro do sistema linfático. Deram-lhe 80% de cura.
A vida da minha mãe mudara e a minha também. Eu tinha 9 anos e tive que crescer á pressa. Sem perceber muito bem o que se estava a passar. A única certeza que tinha é que a situação era grave. De repente vi-me a braços com uma responsabilidade acrescida: eu passei a ser a mãe. Tive de aprender a cozinhar, a limpar a casa e todas as lides domésticas. Sobrava pouco tempo para brincar , porque tinha que fazer os trabalhos de casa. Senti-me sozinha, desamparada, sem mimo porque apesar de ter Pai, tios, primos e avós, que me adoravam e faziam tudo o que podiam para que nada me faltasse, mãe é mãe e a ausência do colinho dela deixou-me ‘nua’ e desprotegida . Tive de aprender a defender-me sozinha, sem recorrer aos adultos achei que estavam todos demasiado preocupados com a doença da minha mãe.
Sentia-me o patinho feio, porque enquanto as minhas colegas saiam da escola com a certeza que á sua espera estava mãe e a promessa de uma tarde bem passada, eu sabia que ia encontrar a minha, deitada na cama sem forças e a vomitar, tudo culpa da quimoterapia.
Foram 4 anos de quimioterapia, biopsias ao fígado e aos gânglios linfáticos e 1 ou duas transfusões de sangue, porque com tanta quimio foi inevitável uma anemia. Ao fim de 5 anos disseram-lhe que estava curada.
A minha mãe é uma lutadora e venceu o bicho ( como dizia o fantástico António Feio). Tem hoje 68 anos e continua a ser o meu maior pilar. Amo-a. Está muito bem de saúde, feliz e contente. Vai uma vez por ano ao IPO apenas para exames de rotina,( porque quem lá entra nunca mais de lá sai). Eu cresci com uma maturidade elevada, o que fez de mim a mulher que sou hoje: forte e determinada. Porém sempre que vejo uma mulher jovem, com uma vida inteira pela frente, recordo esta "longa metragem" da minha vida que nunca conseguirei apagar. E sinto medo por ela. Medo que tenha filhos e que estejam a sofrer o que eu sofri. e nessa altura peço em silêncio que encontre a cura.