domingo, 16 de maio de 2010

A 2ª Infância.


Estão a ver este sorriso? Pertence a um sr. com 96 anos. Este sr. que é bisavô das minhas princesas tem uma experiência de vida tão longa que seria necessária uma trilogia, ou quadralogia, ou quintalogia... para contar as peripécias da sua vida.

Ele era um "rapazito" com uma energia inesgotável. Tocava viola, aliás era/é a sua grande paixão. Fosse para que lado fosse a viola ia atrás. Tocava no grupo de jovens da igreja, tocava num rancho lá da aldeia e todos os fins-de-semana havia digressões pelas terriolas ali das redondezas, digamos que uma espécie de encontro de culturas.

Ainda tinha tinha tempo para tratar da casa ( é viúvo há muitos anos), da horta e dos animais que criava.
Mas as pernas atraiçoaram-no e impediram-no de ser o trovador que fora outrora. Agora em vez da viola, a sua companheira passou a ser uma bengala, que o ajuda a caminhar muito devagar.
Já não vai há missa, mas faz questão de a ouvir na rádio. Passa os dia em frente á televisão, mas acredito que não liga nenhuma ao que se passa na caixa mágica. A sua cabeça continua a viajar pela música.

Num destes dias que o visitei, tirei esta foto, e fiquei ali a observa-lo... Tinha o olhar fixo na janela, um sorriso no rosto e pensei: " Em que será que pensa? Ou será que pensa em alguma? Quando chegamos a esta idade, o que há para pensar?"

Foi aí que me abeirei dele e iniciamos um diálogo:
- Ti' Alexandre, ainda se lembra de mim?
- Lembro pois. Mas a menina hoje está diferente de 'ônte'? ( era verdade estava com o cabelo apanhado)
- Estou, mas continuo gira, não é?
- Ai isso é, é verdade sim senhor. Ainda é jovem...
- O Ti' Alexandre também está aí pr'as curvas.
- Oh menina, já lá vão 96, sabe o que isso é?
- Não pense nisso. Sabe, eu pretendo chegar aos 120.
- Aí é ?!
- É.
-'Atão' olhe menina, eu espero lá por si!

Dito isto desatamos os dois a rir, mas rir a bom rir, que o sr. até se engasgou com tosse. E rematou assim a conversa:

- Sabe o que lhe digo menina?! Isto onde há mulheres, há o Diabo!

E lá continuamos a rir. Dei-lhe um beijinho e um abraço, com a promessa de em breve nos voltarmos a ver.

1 comentário:

Isabel disse...

O maior e o melhor avô que se poderia ter... Obrigada por este post, delicioso. Ajudou a matar algumas saudades. Este é o meu avô, de bem com a vida e sempre com sentido de humor. ;) Beijos